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Brasil depacha Uruguai e fará final da Copa das Confederações

Parecia que o Mineirão era o Maracanã. O ano, 1950. Assim como naquela catastrófica decisão de Copa do Mundo, a Seleção Brasileira esbanjou nervosismo diante do Uruguai nesta quarta-feira. Mas o final foi diferente. Com direito a um pênalti defendido pelo goleiro Júlio César, que vingou o crucificado Barbosa, o Brasil de Luiz Felipe Scolari venceu o Uruguai por 2 a 1 e avançou para a final da Copa das Confederações.

Graças aos gols do mineiro Fred e do volante Paulinho, o último deles aos 40 minutos do segundo tempo, a Seleção Brasileira enfrentará o time vencedor do confronto entre Espanha e Itália no domingo, no Maracanã – a semifinal europeia será disputada na quinta-feira, no Castelão. O Uruguai, que descontou através do centroavante Edinson Cavani nesta tarde, decidirá o terceiro colocado da Copa das Confederações também no fim de semana, na Arena Fonte Nova.

O jogo – Já não era mais novidade a torcida brasileira continuar a cantar o Hino Nacional, à capela, mesmo após a música dos alto-falantes ser precipitadamente interrompida. Ainda assim, havia quem se emocionasse bastante. Os jogadores do Brasil saltaram, bateram em seus peitos e gritaram após a execução, enquanto alguns torcedores estenderam os braços para mostrar que estavam arrepiados.

Tamanha comoção, desta vez, deixou a Seleção Brasileira nervosa no gramado. O Uruguai usou a traquejo de jogar junto desde a Copa do Mundo de 2010 para tirar proveito da situação. O goleiro Muslera foi o primeiro a demorar a repor a bola em jogo, logo seguido por seus companheiros. A atitude despertava irritação no público, até então mais preocupado em ofender somente um famoso locutor de televisão.

Não foi apenas a torcida que saiu do sério. Os comandados de Felipão se sentiram ainda mais pressionados em incomodar rapidamente a defesa do Uruguai, como haviam feito contra a Itália. O excesso de ímpeto fez com que o volante Paulinho não se encontrasse no meio-campo, o lateral esquerdo Marcelo tropeçasse na bola e até o atacante Neymar, novamente aplaudido, fizesse passes sem direção.

Ninguém pecou mais do que David Luiz naquele momento de instabilidade. Aos 12 minutos, o zagueiro do Chelsea agarrou de forma desnecessária seu colega Diego Lugano dentro da área, em uma cobrança de escanteio. O árbitro chileno Enrique Osses (o mesmo que despertava suspeitas no próprio defensor uruguaio, com passagem pelo São Paulo) não hesitou em apontar para a marca da cal e assinalar o pênalti.

Foi então que a Seleção enfim reagiu. O goleiro Júlio César fixou os olhos em Diego Forlán, o uruguaio encarregado de cobrar a penalidade, e saltou no canto certo para vingar o falecido Barbosa (eleito o vilão da derrota no Maracanã em 1950) com uma bela defesa. Curiosamente, o veterano havia se lamentado porque não teve a chance de se consagrar diante da Itália, quando não houve pênalti contra o Brasil.

O feito de um ovacionado Júlio César era o que faltava para a Seleção começar a se ajustar. A torcida já comemorava até um chute forte de Oscar para afastar a bola do campo de defesa. Pouco depois, aos 16, o meio-campista deu um motivo melhor para vibração ao protagonizar um bom lance ofensivo, com uma arrancada e uma finalização firme, por cima da meta defendida por Muslera.

Neymar também estava disposto a aparecer mais. O astro do Barcelona decidiu provocar os uruguaios com gingas com o pé sobre a bola e ao cair em qualquer dividida. O centroavante Cavani não gostou da postura (de que Lugano já havia reclamado de véspera) e, depois de cometer uma falta, desferiu uma ofensa que qualquer leigo em leitura labial poderia identificar.

Se o clássico sul-americano era brigado, Hulk estava à disposição para ajudar com a sua força física. O atacante conseguia transpor a marcação celeste com a cabeça baixa, o peito estufado e os braços abertos. Bastava uma conclusão dele para fora ou um passe errado, contudo, para parte da torcida voltar a se impacientar. Os torcedores do Atlético-MG no Mineirão pediram a entrada do mineiro Bernard, enquanto os demais fizeram coro por Lucas.

Àquela altura, porém, a Seleção já parecia pronta para acabar com a impaciência do público. Fred quase abriu o placar depois de um cruzamento rasteiro de Marcelo. Aos 40 minutos, ele não perdoou. Paulinho finalmente apareceu com um bom cruzamento para Neymar, que correu pela esquerda e tentou encobrir Muslera. O centroavante do Fluminense, mineiro de Teófilo Otoni, ficou com o rebote da defesa parcial do goleiro uruguaio e arrematou para abrir o placar em sua “casa”, como definiu. “Uh, terror! O Fred é matador!”, retribuiu a torcida.

Mais calma no princípio do segundo tempo, a Seleção já se permitia até tentar tirar vantagem da ira dos uruguaios, ainda incomodados com as quedas de Neymar. A alegria durou pouco. Aos dois minutos, a defesa brasileira cometeu um vacilo generalizado. O último a falhar foi Thiago Silva, que jogou a bola nos pés de Cavani. O centroavante justificou o temor de Felipão com o seu oportunismo e bateu cruzado para mandar a bola no canto e empatar o jogo.

Toda a confiança que o Brasil havia adquirido no final do primeiro tempo pareceu ter ido embora com o gol de Cavani. Nos 15 minutos seguintes, o Uruguai aumentou o seu volume de jogo, a ponto de passar a atuar a maior parte do tempo na intermediária ofensiva, e provocou novos erros brasileiros. O panorama do jogo era preocupante. Até a torcida que havia se arrepiado com o Hino Nacional já estava silenciosa nas arquibancadas do Mineirão.

Felipão tomou uma atitude para trazer a torcida novamente para dentro de campo. Colocou o xodó atleticano Bernard no lugar de Hulk e levantou até os cruzeirenses com o garoto com “alegria nas pernas”, como gosta de definir o comandante. A aposta foi acertada. Causando euforia coletiva sempre que encostava na bola, o meia-atacante contagiou os seus companheiros de time com dribles e assistências. O Brasil voltava a levar perigo ao Uruguai.

Como a melhora da Seleção não se traduziu em gol, Felipão mexeu na equipe outra vez. Trocou Oscar por Hulk, prejudicando a sua armação, e desagradou àqueles que consideraram a alteração defensiva. O ambiente no Mineirão já era de tanta tensão que os desentendimentos nas arquibancadas não ocorriam só por discordância das escolhas do treinador. Um cruzeirense brigou com um atleticano, e a violência só foi contida por gritos de “vão embora” dos demais e pela ação dos orientadores do estádio.

O nervosismo chegou ao fim aos 40 minutos. Neymar, que já até mandava beijinhos para rebater provocações de seus rivais, cobrou escanteio com categoria e encontrou a cabeça de Paulinho dentro da área. O volante redimiu a sua atuação apagada ao colocar a bola na rede e o Brasil na grade decisão da Copa das Confederações. Nem mesmo as aventuras do desesperado goleiro Muslera no ataque fizeram o Uruguai se lembrar de 1950 ao término da semifinal.

(foto: Rafael Ribeiro/CBF)

(foto: Terra/Ricardo Matsukawa)